quarta-feira, 29 de junho de 2011

Tupy or not tupy that is the question...e agora?


Eles chegaram assim, nas mais loucas condições lançaram-se ao oceano desconhecido...

Séculos mais tarde, Oswald ou Osvaldo escreve:


Manifesto Antropófago




Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.(...)
    
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.(...)


Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.(...) 

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.(...)

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e  penitenciárias do matriarcado de Pindorama
                                                                       Oswald de Andrade
           Em Piratininga, ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha
              (Revista de Antropofagia, Ano I. nº 1, maio de 1928)


Bom, desde que li o manifesto, certos trechos me acompanham para descrever e entender o mundo, ou o lugar em que vivo...
Somos canibais!!!!!
Mascaramos com a mais delicada civilidade as maiores brutalidades...
Os índios não precisavam disfarçar rsrsr



Este Manifesto faz um raio X (só coloquei pequenos trechos) da formação da sociedade brasileira. Em tempos do "políticamente correto", que para mim, muitas vezes pode ser utilizado como censura "bem vestida", sinto-me confortável ao ver tantas questões importantes atravessarem o tempo.
Conteúdo X Superficialidade





 
 Hans Staden, foi um alemão que permaneceu em terra brasilis por algum tempo, pode presenciar alguns rituais de canibalismo. Ao retornar a sua terra natal, narrou as aventuras vividas e a partir dessa narrativa foram feitas gravuras que até hoje podem causar certo desconforto aos mais sensíveis.
Todo mundo exclama!!! Que horror!!!! Comiam gente, mas sem entender o sentido cultural naquela época desse ato.
Pensem! Que rituais cumprimos hoje, mesmo que as ações ritualisticas não estejam tão claras!
É o disfarce da civilidade.


Rugendas "Índios"

Muitos artistas retrataram este país desde o início de nossa colonia de exploração, entre eles Frans Post, Albert Eckhout que vieram ao Brasil com Mauricio de Nassau em 1637, Rugendas e Debret, no século XIX. Veja só, esquecemos os índios, matamos os que ainda restam, ignoramos nossas origens! No século XVI a Língua Tupi era mais falada que o português, hoje restam alguns nomes de ruas, cidades e outras palavrinhas incorporaradas ao nosso vocabulário.

Comemos, deglutimos. As vezes devolvemos de uma forma elaborada, incorporando, agregando e reconstruindo. Outras vezes simplesmente esquecemos, sofremos dessa doença, o esquecimento...


Não somos muito abaré uns dos outros, e nem sempre podemos nos considerar como abaeté...
Vou dar trabalho para vocês: deduzir ou procurar um dicionário tupi.




Debret "Retrato de Índia"




Deixamos de lado nossa história, nossas origens e até hoje cometemos os mesnos atos, movidos pela ambição desmedida.

 

Albert Eckhout "Frutas Brasileiras"



Que todos possam ter a mesa farta, as dádivas da terra, a recompensa justa pelo esforço do trabalho, longe de todos os exploradores de nossas riquezas.


Frans Post "Paisagem de Pernambuco"


Que todos possam ter da terra a alegria de pertencer a ela, e saber que ela nos pertence ( a todos), que a fome , a violência, a injustiça, seja uma página virada e não apenas demagogia!

Que a Antropofagia nos separe....